CCZs da região sofrem com falta de estrutura e material


Equipamentos que deveriam estar contribuindo para a erradicação de doenças ocasionadas a partir de animais domésticos, como cães e gatos, encontram-se em estado de abandono e sucateamento na região. Neste município, por exemplo, o Centro de Zoonoses do Cariri deixou de realizar atendimento regionalizado por causa da falta de infraestrutura e, atualmente, só recebe animais da própria cidade. A capacidade do equipamento suporta o recebimento de até 30 animais. No entanto, a demanda diária é muito superior. (Fotos: Roberto Crispim)




No CCZ de Juazeiro, em várias áreas é possível perceber manchas de sangue e forte odor de urina. Além disso, há acúmulo de lixo na maioria das salas, e no espaço onde as triagens são realizadas os equipamentos são obsoletos e enferrujados (Foto: Roberto Crispim)

O local sequer possui kits para realização de exames sorológicos em animais com suspeita de leishmaniose. Recentemente, foram confirmados 24 novos casos de pessoas infectadas pela doença em Crato. Deste total, 22 são de leishmaniose cutânea e 2 casos apresentam-se na forma visceral da doença. No Centro de Controle de Zoonoses de Juazeiro do Norte (CCZ), a situação também é de dificuldade. O telefone do equipamento está quebrado e o veículo utilizado durante a captura de animais permanece constantemente parado por falta de combustível. Na maioria das salas há acúmulo de lixo e no espaço onde as triagens são realizadas os equipamentos são obsoletos e enferrujados. Também há gaiolas velhas jogadas no chão de uma das salas e, em várias áreas do equipamento, é possível perceber manchas de sangue e um forte odor de urina.

Ambas as unidades necessitam de investimento por parte dos governos Estadual e Municipal para que possam voltar a realizar os serviços para os quais foram criadas. No entanto, pelo que se verifica na estrutura física dos dois centros, nenhuma das duas esferas do Poder Executivo têm demonstrado interesse em modificar o atual quadro de descaso e abandono.

GestãoNo Centro de Zoonoses do Cariri, em Crato, a responsabilidade de manutenção do equipamento pertence ao Estado. Porém, é a Prefeitura do município que custeia a maioria das despesas da unidade. No local, reformas estão em andamento na área do canil e na sala onde as eutanásias são realizadas, quando há comprovação laboratorial para tal finalidade.

No entanto, por vários dias, a empresa responsável pelos serviços resolveu paralisar os trabalhos sem prestar quaisquer explicações sobre a interrupção nas obras. Os trabalhos se resumem a reformas no piso e no forro dos dois setores. Devido à paralisação, haverá atraso na entrega dos dois espaços. "A previsão é de que estejam prontas nas próximas duas semanas, segundo informação que nos foi dada por um representante da empresa responsável pelas obras", informou o diretor do equipamento, Ricardo Pierre.

Diante dos atrasos, a área dos canis e a sala de eutanásia estão, praticamente, interditadas. Mesmo assim, o centro continua recebendo cães por causa da quantidade de casos de leishmaniose detectados no município. "Para atender aos animais capturados nas áreas onde foi realizado um bloqueio, nós separamos um canil coletivo, com algumas divisórias. O problema é que a capacidade deste canil não suporta grande quantidade de animais. No bairro São José uma criança foi acometida pela leishmaniose cutânea. Os cinco cães da residência estavam infectados. Nós não poderíamos, de maneira alguma, permitir que os animais permanecessem na residência. Há cerca de oito cães no Centro de Zoonoses hoje. No entanto, devido à quantidade de casos suspeitos no município, era pra termos entre 30 e 40 animais recolhidos", disse.

Além da falta de espaço para abrigar os animais com suspeita de contaminação, o equipamento também não conta com instrumentos para realização de exames laboratoriais. "Não há material para o diagnóstico de leishmaniose. Esse kit é um programa nacional e é repassado pelo Ministério da Saúde aos Estados que, posteriormente, realizam os encaminhamentos aos municípios", explica Ricardo Pierre, ressaltando que o material está em falta em todo o Ceará. "Eu telefonei para a Regional, em Fortaleza, e o que eles têm dito é que o Ministério não está repassando o material. E aí, como é que fica?", questiona.

Situação parecidaEmbora timidamente, a falta dos kits para realização dos exames laboratoriais também é confirmada pela diretora do Centro de Controle de Zoonoses de Juazeiro do Norte, Ivânia Sandra Ferreira Neri. "Na realidade, quem está em falta é o Ministério da Saúde. Não há kits porque o Ministério não está alimentando o Estado que, por consequência, também não está me alimentando", disse Ivânia.

A diretora do equipamento confirmou que o telefone da unidade não está funcionando. O problema, segundo ela, teria sido ocasionado por um dano na caixa de transmissão do aparelho. "Foi encaminhado um ofício para a operadora e um técnico detectou o problema. Eu estou aguardando que novas peças sejam trazidas para realizarmos a troca", explicou.

Ivânia Ferreira negou, no entanto, que haja falta de combustíveis para que o veículo usado nas capturas de animais possa ser utilizado. Conforme disse, a distância entre os pontos de deslocamento dentro do município, em algumas ocasiões, resulta em demora de atendimento. "Tem momentos em que o carro realmente não tem condições de ir a um bairro distante. Quando isso acontece é feito um agendamento e, posteriormente, o serviço é prestado", concluiu.

Além da ausência do material para realização dos exames sorológicos, o número de animais perambulando pelas ruas e avenidas das cidades que formam a região do Cariri também se constitui em fator preocupante em relação à possibilidade de propagação da leishmaniose. Ricardo Pierre avalia que, caso houvesse a condição de captura diária pelo Centro de Zoonoses do Cariri, cerca de 50 animais, no mínimo, seriam recolhidos diariamente na região.

"Nossa capacidade de atendimento ainda é muito pequena. Só há suporte para cerca de 30 animais, 40 no máximo. No entanto, por conta do número de casos de leishmaniose já confirmados, não há como permitir que os animais permaneçam soltos pelas ruas da cidade. A gente faz o que é possível dentro das nossas limitações. É preciso que haja, também, maior responsabilidade dos criadores de cães e gatos. Quando se adquire um animal de estimação, as pessoas acabam esquecendo que os bichos crescem e que precisam de cuidados. Muita gente não assume essa responsabilidade e acaba abandonando os animais, o que constitui crime, inclusive", ressalta Pierre.

Ainda conforme ele, a maioria dos municípios da região não possuí local adequado para abrigar animais abandonados por seus criadores, o que também gera dificuldade de combate a doenças. "Nós recebemos pedidos frequentes para recolhimento de animais em outros municípios. Porém, diante da situação, é impossível realizar estes atendimentos. Desde o ano passado que apenas animais do Crato são trazido para o nosso equipamento", frisou.

Mais informações:Centro de Zoonoses do Cariri
Telefone (88) 3521-2698
Centro de Controle de Zoonoses de Juazeiro do Norte
Telefone (88) 3566-4311


Fonte: Diário do Nordeste  

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