Fábrica Escola resgata a cultura da cana-de-açúcar no Cariri


FOTO: ANTONIO RODRIGUES Por quase três séculos, a economia açucareira foi hegemônica no Cariri. Na cidade de Barbalha, apelidada de terra dos “Verdes Canaviais”, até a década de 1960, a produção da cana-de-açúcar se manteve com força com quase uma centena de engenhos. Atualmente, apenas cinco estão ativos. Com o intuito de reavivar essa produção, foi implantado, em 2014, a Fábrica Escola de Cana-de-Açúcar do Cariri. Cinco anos depois, os primeiros resultados foram colhidos. A primeira safra do equipamento contemplou a produção de rapadura, açúcar mascavo, melado de cana, além do carro chefe: a cachaça artesanal. 

Além de fomentar a produção da cana, a Fábrica, administrada pelo Instituto Agropolos, visa a valorização da agricultura familiar. Os primeiros resultados são animadores. No ano passado, foram produzidas 400 toneladas de cana numa área de 3,5 hectares. Para 2020, a estimativa é expandir essa área para 5 ha “para atender à demanda de propagação de mudas e capacitações”, explica o diretor da Fábrica Escola, Alexandre Cortez. A propagação a que se refere é a distribuição de mudas produzidas no próprio equipamento. São 15 toneladas distribuídas a cada ano. Todo esse volume, que culminou no retorno da cultura, deve-se, segundo Cortez, “ao solo do Cariri, que tem condições ideais para o cultivo”. 

Resultados 
No ano passado, a Fábrica começou a colher os primeiros resultados. Em 2019, foram fabricados 4.200 litros de cachaça artesanal, envelhecida dois anos em barris de carvalho e umburana. O trabalho é resultado de oficinas e minicursos ministrados pelos próprios funcionários. Há, ainda, projeto de criar licores com sabores de frutas nativas da região. Os produtos serão posteriormente comercializados para o autossustento do equipamento. 

A meta, para este ano, além de expandir a produção, é inserir os produtos no mercado. Hoje, toda ela está sendo feita apenas para degustação no próprio equipamento e nas feiras e exposições que participa. Hoje, a fábrica possui uma bodega dentro do prédio onde recebe turistas e visitantes, além de agricultores e empreendedores. O espaço é aberto para estudantes que são guiados para conhecer o processo, desde o cultivo, até a fabricação da cachaça artesanal e outros derivados. 

Além do plantio 
Segundo Cortez, também são realizadas capacitações para estimular a fabricação de derivados da cana. “Oferecemos cursos e oficinas de mestre alambiqueiro para produção de cachaça artesanal e minicursos de produção de rapadura, açúcar mascavo e melado de cana”, enumera. 

Neste semestre, o equipamento iniciará um curso de cachacier, especialidade em degustação e harmonização de cachaças de alambique. 

Outra ação, através dos encontros com os produtores, é a estimulação para melhorar a rotulação e a criação de embalagens que atendam ao mercado. No caso da última safra, por exemplo, a garrafa apresenta desenhos com aspectos regionais, como o cordel, as bandas cabaçais, o Padre Cícero, e homenageia Chico da Cascata, um dos primeiros produtores de cana da região. 

“É importante salientar que o público da cachaça artesanal não é aquele de bar. É um apreciador. É uma cachaça mais ‘saborizada'”, descreve Cortez. O processo de destilação é diferente das indústrias convencionais. Primeiro porque é feito ao som de música clássica. “Uma pesquisa provou que as moléculas trabalham melhor com um ambiente assim. A gente acelerou o processo de fermentação de 28 horas para 23 horas”, garante Cortez. O outro destaque são os alambiques feitos de cobre para separar a cachaça mais “pura”. Todo o processo de cozimento também acontece a vapor e sem utilizar produtos químicos.

(Diário do Nordeste)

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