Empresas ficam afetadas devido demora e burocracia para acessar crédito durante pandemia


Embora o Governo Federal tenha criado programas para ajudar empresas a enfrentarem a crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus, o acesso ao crédito ainda vem sendo uma barreira para grande parte dos negócios no Brasil, principalmente, pelo excesso de burocracia e demora dos bancos. Segundo o Banco Central (BC), dos R$ 40 bilhões disponíveis por meio do Programa Emergencial de Suporte a Empregos (Pese), apenas R$ 3,66 bilhões foram contratados em todo o País. Deste valor, R$ 54,9 milhões (1,66% do total) vieram para o Ceará, contemplando 1.401 empresas.

O Pese foi criado pelo Governo Federal para pequenas (receita bruta anual de R$ 360 mil até R$ 4,8 milhões) e médias empresas (receita bruta anual de R$ 4,8 milhões até R$ 300 milhões), visando financiar as folhas de pagamento dos negócios. De acordo com o BC, somente 3.692 dos pedidos foram negados no Brasil, mas a instituição não divulgou o total de solicitações feitas. O banco também não informou o número de requerimentos feitos no Estado.

A empresária Juliana Sá, 39, atua no segmento de academias e está entre os que ainda não conseguiram crédito durante a pandemia. Há dois meses, solicitou empréstimo via o Banco do Nordeste (BNB) para conseguir negociar o aluguel e outras despesas enquanto o negócio não está autorizado a reabrir.

“Até agora, não tive uma resposta. É tudo muito burocrático. No início, houve um problema cadastral que não tem a ver com restrições no meu nome. Até o banco descobrir o que era, passei por vários gerentes e enviei vários documentos”, relata.

Ainda à espera, a expectativa é de aprovação para liquidar as contas abertas e ter como retomar em julho — data prevista para o setor de acordo com o cronograma de flexibilização do Governo do Ceará. Por conta das dificuldades econômicas, Juliana precisou demitir dez funcionários e 13 tiveram o contrato suspenso por meio da MP 936. “Eu estou sem caixa e não tenho perspectivas”, diz.

No Ceará, embora os números não retratem quantas pessoas tiveram crédito negado pelos bancos, os dados mostram que as instituições privadas foram as que mais emprestaram por meio do Pese, com Itaú e Bradesco no topo do ranking (ver quadro).

Outro ponto é que, além de estar difícil o acesso das empresas que já se enquadram nesta linha de crédito, uma outra parte da economia não é alcançada pelo programa, como os negócios de pequeno porte.

Falta celeridade na análise do perfil do cliente

O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Ceará (Fecomércio), Maurício Filizola, explica que, em alguns casos, os empresários são obrigados a contratar empréstimos de bancos privados, com juros mais altos, para obterem o socorro financeiro a tempo. A demora para análise do perfil dos correntistas é o que tem provocado mais transtorno, além das negativas de crédito.

“O que precisamos é de um processo célere para o empresariado estar preparado na retomada da economia e conseguir cumprir com as obrigações sinalizadas pelo decreto do Governo do Estado”, afirma, lembrando o plano de flexibilização das atividades, que prevê a reabertura gradual da economia cearense em quatro fases.

Silvana Parente, vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-CE), reitera que, neste momento de paralisação das atividades, esses recursos finaceiros são essenciais para que os negócios sobrevivam, com a quitação das contas em atrasos, e, também, para a compra de matéria-prima para a retomada.

“Além disso, os microempreendedores individuais (MEIs) já chegaram a 10 milhões. Ou seja, esse segmento representa mais da metade da ocupação do emprego no Brasil. É fundamental que tenham renda para consumir e fazer a roda da economia girar”, observa.

Banco diz que se esforça para garantir suporte a empreendedores

Procurado sobre os casos citados nesta reportagem, o BNB informou que está ciente de seu papel na região Nordeste diante do cenário de dificuldades imposto pela pandemia e tem direcionado esforços para garantir parceria e suporte aos empreendedores.

“Assim, no tocante à concessão de novos créditos, o Banco tem garantido o fôlego necessário para que milhares de negócios possam continuar existindo. Somente de 16 de março até 10 de junho, contratamos mais de 1 milhão de novos créditos. Isso representa mais de R$ 9 bilhões injetados na economia de nossa área de atuação”, afirma. No Ceará, segundo a instituição, foram mais de 355 mil operações, com R$ 1,6 bilhão contratados durante o período de pandemia.

Foto: Reprodução
Fonte: O Povo Online

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