“Ceará vai produzir o mosquito que impede transmissão da dengue”, diz coordenador da Fiocruz Ceará


Antes da fatídica chegada do coronavírus ao Brasil, os focos de pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) eram outros, e avançavam com sucesso. Um deles visa a interromper a transmissão de dengue, Zika e chikungunya simultaneamente e estava prestes a ser desenvolvido, também, no Ceará.

A unidade da Fundação no Estado vem crescendo durante a pandemia, e deu um passo importante em agosto, com a inauguração de um centro de testagem no município de Eusébio. O médico Carlile Lavor é coordenador da Fiocruz Ceará e, embora reconheça a prioridade dos trabalhos voltados à Covid-19, reforça que o estudo promissor com o mosquito Aedes aegypti deve começar a ser conduzido no Estado no início de 2021.

Entrevista

Quais pesquisas já estavam encaminhadas antes da pandemia e tiveram que ser pausadas?

Carlile Lavor – Uma das pesquisas mais importantes, que inclusive terá um papel importante do Ceará, é a produção do mosquito Aedes aegypti. Um brasileiro pesquisador da Fiocruz de Minas Gerais, que trabalha na Austrália, viu com seus colegas de pesquisa que se o Aedes, que transmite dengue, Zika e Chikungunya, estiver com uma bactéria que é comum a outros mosquitos, ele deixa de transmitir as doenças. Essa pesquisa começou na Austrália, já são hoje sete países que estão conduzindo essa experiência, e no Estado do Rio de Janeiro também.

Aqui no Ceará, teremos o papel de juntar essa bactéria com o nosso mosquito e produzir esse novo Aedes e distribuir em larga escala para todo o Nordeste. Vai ser uma experiência muito importante, mas parou um pouco com a pandemia.

O pesquisador ficou com medo de vir ao Ceará, ele já é idoso. Mas estamos trabalhando muito do projeto para termos R$ 12 milhões no orçamento do Ministério da Saúde para termos essa biofábrica aqui na Fiocruz, e eu espero que até dezembro a gente esteja com essa contratação feita, para que a empresa comece a construção. A gente tem que garantir esse contrato ainda este ano, senão perdemos o dinheiro.

No começo do ano, já poderíamos ter trabalhado mais nisso, mas toda a atenção acabou indo para construir a nossa Central de Testagens no Eusébio. Aí, tanto a área administrativa como os pesquisadores tiveram que se voltar inteiramente à Covid-19.
Agora que já está mais tranquila a situação, já se tem noção dos passos importantes dados para a vacina, podemos retomar esse trabalho.

Assim como a conclusão dos nossos laboratórios de pesquisa.
No Ceará, hoje, a gente tem 30 pesquisadores concursados pela Fiocruz, e grande parte está trabalhando nos laboratórios de outras universidades. Na UFC, na Uece, na Unifor, porque nossos laboratórios ainda não estavam prontos. A gente está concluindo o nosso laboratório. Toda a parte de construção ficou parada por meses seguidos.

Agora, os trabalhos foram retomados e a gente espera no próximo mês que parte do laboratório esteja funcionando, e até o início do ano que vem a gente concluir o nosso prédio de pesquisa de laboratório.

Qual a bactéria que deve ser introduzida no Aedes aegypti?

Carlile Lavor – A bactéria se chama Wolbachia. É uma bactéria comum em outros insetos, mas no Aedes, não.

Mas foi verificado que o Aedes pode passar a hospedar essa bactéria em seu aparelho digestivo. No momento em que ele está com ela, ele deixa de ser capaz de transmitir essas doenças.

E uma coisa importante é que toda a prole desses mosquitos vai nascer já com a Wolbachia, e o que tem se verificado nos outros países e no Rio de Janeiro, onde a pesquisa já começou, é que a redução de casos de dengue, Zika e chikungunya é muito grande.
Ele impede a transmissão da febre amarela, também, o que é muito importante.

Há quanto tempo essa pesquisa foi iniciada?

Carlile Lavor – Ela foi trazida para o Brasil há uns cinco anos pelo Luciano Moreira. Ele já esteve no Ceará, discutindo com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Porque uma coisa é a produção do mosquito, que a gente vai fazer. Outra coisa é a distribuição desse mosquito, que aí tem que envolver o Estado e os municípios.

Então, é um trabalho conjunto que estamos fazendo com a Sesa e com os municípios.
Da mesma forma que sempre tem aquela campanha para acabar com os mosquitos, nós vamos ter uma campanha para distribuir os mosquitos. Aí entra um trabalho importante com as famílias e a comunidade, de dizer “olha, esse mosquito aqui é bom”.

A expectativa é de que a produção desse mosquito comece no ano que vem, no Ceará?

Carlile Lavor – Isso.
Essa nova unidade no Eusébio pode fazer com que o Ceará se torne candidato a receber mais pesquisas da Fiocruz no futuro?
Carlile Lavor – É o maior laboratório de diagnóstico no Nordeste, para grandes volumes. Podemos fazer 10 mil exames diários da pesquisa do vírus, pelo teste molecular, e 6 mil exames da sorologia, que é o do anticorpo. Ainda neste ano, vamos fazer 300 mil exames junto com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS).

Uma grande pesquisa vai ser feita em todo o Brasil para se ver, de fato, como foi a infecção no País, identificar quantas pessoas estão infectadas, por Estado e por regiões, por idade e classe social. Um grande estudo, que a OPAS/OMS vai fazer junto com o Ministério da Saúde, e com as centrais do Ceará e do Rio de Janeiro.

E como tem sido o desenvolvimento de trabalhos científicos em 2020?

Carlile Lavor – Neste ano, a Covid-19 foi o tema central. Tanto do ponto de vista do diagnóstico, a preparação dos kits para diagnóstico. Aí entrou a Fiocruz do Paraná e começou, digamos, em fevereiro. Um curso foi dado na Fiocruz para todos os países da América Latina, do Panamá até a Argentina. Foi dado um curso no Laboratório de Referência para Vírus Respiratórios, lá no Rio, para o diagnóstico. A preocupação era o diagnóstico.

Uma coisa bonita que a gente viu foi as empresas particulares doando recursos pro SUS. Eu nunca tinha visto isso dessa forma, como eu vi neste ano.

Carlile Lavor – Uma comissão de médicos e instituições, incluindo a Fiocruz, de sete pessoas, acertou como dividir esse valor recebido, e claro que uma parte foi para a Fiocruz, inclusive, aqui para o Ceará. Nós ganhamos aqui uma central analítica. Vieram R$ 70 milhões desse recurso, depois foram complementados por mais R$ 20 milhões. Em três meses, fizemos a construção e equipamos. Contratamos já 120 técnicos, dos quais 33 com doutorado e 31 com mestrado. Podemos fazer até 10 mil exames por dia. Fizemos já para Santa Catarina, para Alagoas, e têm vindo mais. Estamos atendendo o que o Ceará está precisando.

A outra coisa é a vacina, que o Brasil todo está esperando. Toda a equipe de Bio-Manguinhos, que é a nossa fábrica de vacinas, está empenhada nisso. Primeiro foi a escolha, junto ao Ministério da Saúde, de qual das vacinas deveria se concentrar. Aí, viu-se que a de Oxford era a mais adiantada.

O Ministério colocou um bilhão e 900 milhões de reais pra essa vacina, para a compra da vacina de Oxford, e R$ 400 milhões para a Fiocruz, para Bio-Manguinhos se preparar para produzir em larga escala essa vacina. As primeiras 100 milhões de doses, que vão de dezembro até julho, com o princípio ativo vindo já da Inglaterra, e, a partir de agosto, a gente espera já dominar completamente a tecnologia e fazermos a vacina aqui na Fiocruz.

Alguma etapa dos testes da vacina pode acontecer no Ceará?

Carlile Lavor – Os testes não estão sendo feitos pela Fiocruz. São feitos em São Paulo e no Rio de Janeiro. A Fiocruz está se preparando para produzir a vacina.

Primeiro, essas 100 milhões de doses vêm geralmente em grandes embalagens, e a Fiocruz vai distribuir em pequenas embalagens de 10 doses. Isso já é uma grande etapa, que é ter toda a segurança de distribuir aquela vacina em pequenas doses pelo Brasil inteiro. Garantir a qualidade dessa vacina e, em seguida, passar a produzir no Rio de Janeiro.
Continua a perspectiva de começar a vacinação em fevereiro de 2021?
Carlile Lavor – Exatamente. A ideia é que em dezembro cheguem as primeiras doses para serem embaladas no Rio de Janeiro. Certamente, em fevereiro, as pessoas de maior risco, como os médicos que estão em hospitais, nas UTIs, deverão receber. Aí, de acordo com o risco de cada grupo, vão sendo colocados como prioritários na distribuição da vacina.

Além do estudo com o Aedes aegypti, há outros trabalhos que tenham sido pausadas por conta da pandemia?

Carlile Lavor – O primeiro foco do Ceará foi a saúde da família. Algo que foi muito importante, e a primeira coisa que fizemos na Fiocruz foi criar um mestrado para formar professores.

O Ministério da Saúde queria profissionais da saúde da família, mas não havia professores. Começamos desde cedo a formar professores. Já criamos uma rede com várias universidades do Nordeste e formamos 400 mestres. No Ceará, teve o envolvimento da UFC, da Uece, da Urca, no Crato, e da UVA, de Sobral.

Até o final deste ano, lançaremos o primeiro edital para selecionar 30 candidatos para iniciar o doutorado em saúde da família.

Nós vamos poder ter uma melhoria muito grande na qualidade do trabalho nessa área. O Brasil já tem 40 mil equipes de saúde da família, mas a qualidade ainda é precária, porque muitos médicos atuam nessa área sendo recém-formados, sem a especialização que é necessária. Esse foi o primeiro objetivo em que a Fiocruz Ceará se lançou, e é uma das coisas mais importantes pra gente.

Esse trabalho continua mesmo no atual contexto?
Carlile Lavor – Sim, mas está sendo essencialmente à distância agora. Vamos esperar que a vacina chegue para podermos nos reunir plenamente aqui e nas outras universidades.

Foto: Natinho Rodrigues

Fonte: Diário do Nordeste

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