Chances de sobreposição de Covid e dengue geram alerta para 2021


Foi uma combinação improvável, mas não impossível. O militar Cícero Santos, 44 anos, recebeu diagnósticos positivos para dengue e para Covid-19 no mesmo dia, no mês de junho. A condição trouxe, ao mesmo tempo, espanto e preocupação.

Contudo, o alerta para a interação entre as duas doenças ocorre desde o início do ano porque, para 2020, havia a previsão de setores da saúde de que ocorresse uma epidemia do sorotipo 2 da dengue. O coronavírus surgiu como um percalço a mais para o sistema de saúde.

“Eu senti mais sintomas da dengue, como febre e mal estar. Falta de ar ou perder o paladar, não. Tomei remédio para dor, para febre e os indicados para a Covid”, lembra. A constatação dele, porém, é de que todos, de uma forma ou outra, estão vulneráveis.

Cícero diz que nunca teve dengue antes, e sempre mantinha a casa e o quintal limpos de criadouros do mosquito Aedes aegypti. Na pandemia, também se resguardava e só saía de casa para supermercado ou farmácia.

Até o momento, o Estado contabiliza mais de 336 mil casos confirmados de Covid-19, de acordo com a plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). Em relação à dengue, foram 20.415 confirmações em 2020, considerando os registros de janeiro até o dia 28 de novembro, conforme o boletim epidemiológico mais atualizado da Pasta. O número é 33,8% maior do que os 15.253 casos da arbovirose ocorridos em igual período de 2019.

A Sesa classifica o cenário como de “baixa ocorrência”, mas, quando se realiza a análise por área de saúde, observa-se incremento em quatro, das cinco macrorregiões. São elas: Norte (122%), Cariri (104%), Fortaleza (72,9%) e Sertão Central (20,9%). Só a do Litoral Leste teve redução (54%).

O sorotipo 2 da doença foi isolado em sete municípios – além de Fortaleza, também em Catarina, Ibicuitinga, Icó, Limoeiro do Norte, Milagres e Missão Velha -, e o tipo 1, em seis.

Na interpretação do epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luciano Pamplona, a principal hipótese para a incidência abaixo da esperada da dengue foi o fato de as pessoas terem permanecido mais tempo em casa e, consequentemente, tido mais cuidados com a limpeza do lar. O apoio dos agentes de endemias, que fizeram visitas domiciliares a cada dois meses, foi pausado pela pandemia.

A coordenadora de Vigilância Epidemiológica e Prevenção em Saúde da Sesa, Richristi Gonçalves, endossa que não houve casos acima do esperado, apesar do aumento de notificações. “Isso significa que as vigilâncias estavam bastante atentas às arboviroses.

Claro que alguns casos podem ter sido confundidos com a Covid e vírus diversos, mas não tivemos tanto impacto nos números”, garante.
O secretário estadual da Saúde, Dr. Cabeto, adianta que a gestão está reforçando a educação continuada das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e ampliando a rede, deixando a capacidade adequada pra atender a um possível aumento de vírus respiratórios e dengue.

“Isso dá capacidade de resposta, mas não quer dizer descansar das medidas de prevenção. Duas delas são fundamentais: reconhecer que é uma situação extraordinária e que não há culpados. Além disso, ter a consciência de que vai passar”, ressalta o gestor.

O último boletim epidemiológico da Sesa mostra ainda que houve 835 casos confirmados e duas mortes por chikungunya, e 136 casos confirmados de zika vírus, sendo sete em gestantes. Ambos também se enquadram na categoria de baixa circulação.

Por causa da pandemia, apenas 64 dos 184 municípios fizeram o segundo Levantamento Rápido de Índice para Aedes aegypti neste ano; desse total, 29 tiveram baixa, 29 média e, seis, alta infestação.
Vigilância
Na Capital, os números da dengue duplicaram em relação a 2019. O total de casos até o dia 19 de dezembro (51ª semana de 2020) é 101,3% maior, comparando os 7.848 atuais aos 3.898 anteriores.

Ainda assim, o coordenador de Vigilância Ambiental e de Riscos Biológicos da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Nélio Morais, considera que a cidade ainda está dentro de um nível de baixa transmissibilidade. Já para a Covid-19, o risco é alto, de acordo com o mapa de alerta da plataforma IntegraSUS.

“Paralelo à Covid, precisamos ter o controle dessas arboviroses para que Fortaleza não tenha duas epidemias concomitantes causando danos à população e colapsando a rede de saúde. Tem que ser um trabalho integrado”, explica Nélio, lembrando que a Capital está há oito anos sem registrar epidemias de dengue e recomendando que a população se mantenha engajada na eliminação de criadouros do mosquito Aedes aegypti.

Para contribuir com o combate, a SMS iniciou a Operação Inverno 2021 ainda no mês de novembro, no Mucuripe. Segundo Morais, o objetivo é percorrer, até fevereiro, os 30 bairros mais vulneráveis a problemas de infestação vetorial e com maior registro de casos no Município.

Apesar do cenário não epidêmico, foram verificados “surtos localizados” em bairros como Vicente Pinzón, Cais do Porto, São João do Tauape, Barroso, Jangurussu, Conjunto Palmeiras e Curió. “As ações vão ser determinantes para que a chegada da chuva não propicie o retorno de epidemias de dengue ou outras arboviroses”, reitera Nélio.

Cuidados

A estudante Nataly Santos, 24, até mantém os cuidados em casa, mas o entorno de onde mora não é pavimentado e acumula água no período chuvoso. Neste ano atípico, ela foi infectada pelas duas doenças: teve dengue no início de março e, no fim de abril, foi contaminada pelo coronavírus.

As diferenças foram claras. Na dengue, sentiu mais dor nos olhos. Na Covid-19, perdeu temporariamente o paladar e o olfato.

Decorridos oito meses do diagnóstico, Nataly declara que permanece “mantendo os cuidados” com higienização e distanciamento social “porque a Covid não se tem certeza se pode pegar outra vez, e a dengue a gente pode pegar mais de uma vez de forma comprovada”.

Richristi Gonçalves, da Sesa, aconselha que as medidas sejam continuadas porque ainda não se pode prever como as arboviroses se comportarão em 2021.

“Esperamos que esse cuidado tenha acontecido e permaneça, mas vamos ver isso no início da quadra chuvosa. O tipo 2 continua circulando, aconteceu em alguns municípios, e ficamos com receio de que possa haver um espalhamento”, alerta a coordenadora.

O professor Luciano Pamplona, da UFC, concorda com a incógnita que deve ser o próximo ano, mas reflete que o início será de “apreensão” porque vários municípios já começaram a receber chuvas.

“São dois desafios no fim de ano: evitar aglomerações e ambientes fechados, e cuidar do nosso ambiente para não virar um criadouro do mosquito”, diz o epidemiologista.

Foto: Helene Santos

Fonte: Diário do Nordeste

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