Justiça nega pedido de habeas corpus a guru espiritual acusado de abusos sexuais


O “guru espiritual” Pedro Ícaro de Medeiros, conhecido como Ikky, teve o pedido habeas corpus negado em sessão nesta terça-feira (26) pela 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Ceará. Pedro Ícaro é acusado por crimes sexuais contra adolescentes que frequentavam a comunidade que ele havia fundado. A informação foi confirmada pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE). Mais informações não foram repassadas, já que o caso corre em segredo de Justiça.

O advogado de Pedro Ícaro, Paulo Quezado, informou que vai recorrer da decisão ao Superior Tribunal de Justiça.
Pedro Ícaro foi preso preventivamente em setembro do ano passado. Em novembro de 2020, a Justiça do Ceará acolheu mais uma denúncia contra o “guru espiritual” Pedro Ícaro de Medeiros por crimes sexuais contra duas vítimas adolescentes. A denúncia do caso foi realizada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE).
Ele também passou a ser investigado por crimes de violação sexual mediante fraude, crime sexual para controlar o comportamento social ou sexual da vítima, charlatanismo e curandeirismo.

As investigações dos casos de crimes sexuais contra as adolescentes iniciaram com a hashtag #exposedfortal, que denunciava crimes sexuais cometidos por suspeitos no Ceará. Após a hashtag, o Ministério Público lançou campanhas convocando as vítimas de crimes sexuais no estado, quando duas delas denunciaram Pedro Ícaro.

De acordo com o MPCE, a peça criminal foi protocolada pelo Núcleo de Investigação Criminal (NUINC) e pela 167ª Promotoria de Justiça de Fortaleza. O processo encontra-se em segredo de Justiça, portanto, o MPCE não divulgou detalhes da denúncia.

Na época da prisão do guru, o coordenador do NUINC do MPCE, Humberto Ibiapina, informou que os crimes investigados nesse inquérito foram o início da prática criminosa de Ícaro, antes do desenvolvimento dele dentro da Comunidade Afago, da qual ele se dizia mestre. Ibiapina afirmou que o guru se aproximou das vítimas prometendo que elas teriam a ‘salvação’.

“Essas duas vítimas são, talvez, as primeiras vítimas do modo de agir do Ícaro. Se aproximava de pessoas carentes, pessoas com problemas pessoais, que sentiam essa carência de uma pessoa que conversasse, interagisse, e, a partir daí, ele fazia essa aproximação”, explicou o coordenador.
A prisão do acusado ocorreu no âmbito da Operação Erasta, que cumpriu mandados de prisão preventiva e busca e apreensão contra ele. A polícia cumpriu as ordens em três endereços, em Fortaleza.

Outras vítimas na comunidade

As primeiras denúncias contra Pedro Ícaro foram divulgadas em reportagem do Fantástico, em julho deste ano. Os crimes, ocorridos entre 2018 e 2019, foram apontados por outros jovens que frequentavam a Comunidade Afago.
As denúncias de vítimas da Comunidade Afago foram investigadas em um outro inquérito, instaurado no 26° Distrito Policial. Nesse caso, Ikky, como era chamado na Comunidade, é acusado por violação sexual mediante fraude, crime sexual para controlar o comportamento social ou sexual da vítima, charlatanismo e curandeirismo.

Conforme a jurista Thayná Silveira, que encaminhou as denúncias ao Ministério Público, pelo menos 50 jovens afirmam terem sofrido algum tipo de crime cometido por Pedro Ícaro.

A Justiça do Ceará aceitou essa primeira denúncia do Ministério Público (MPCE) contra ele, o tornando réu em 24 de julho, uma semana após o caso ser revelado. Na época, o juiz recusou o pedido de prisão preventiva de Ícaro.

Crimes

Um jovem que optou por não ter seu nome divulgado contou ao Fantástico que o suspeito o obrigou a ter relações sexuais com ele: “Eu estava chorando, sangrando e eu esperava dele um pouco de humanidade. O que ele fez foi tirar minha blusa e colocar minha blusa na minha boca para que parasse de chorar e ele pudesse continuar”.
Já uma mulher, também de identidade preservada, comentou os impactos negativos em sua saúde mental após as vivências no lugar. “Eu entrei na Afago já num momento frágil psicologicamente. E fui ficando cada vez mais frágil e culminou numa crise de depressão muito intensa”, lamentou.

Pedro Ícaro também é investigado por estelionato. Ele ofereceria cursos e consultas de terapia tântrica. O guru alegava que havia recebido formação do Prem Hamido, que tem uma clínica de terapia corporal em Fortaleza. Porém, o terapeuta desmentiu Ícaro durante entrevista ao Fantástico.
Conforme Pamela Magalhães, membro da Afago, Ikky ofereceria cursos para a comunidade e, a cada semestre, os valores das aulas aumentavam. “Tanto que quando eu entrei era R$ 50 e quando eu saí um determinado curso já era R$ 1500″, afirmou.

Rituais

Os jovens também relataram a prática de rituais violentos dentro da comunidade. Para subir de hierarquia, haviam provas violentas e troca de tapas.
Outro ritual era o “ovo luminoso”. Em um círculo mais restrito cinco homens e duas mulheres são convocados para participar. Eles devem obedecer as ordens do estudante. “Para as meninas, ele só pedia o sangue menstrual. Mas pros rapazes, ele dizia que para participar do ovo luminoso, tinha que ter dez sessões de sexo com ele”, detalhou uma das vítimas.
O resultado era um só: “As pessoas ficavam muito tontas. Choravam. Eu sempre chorava”, revelou uma vítima. A justificativa para a sequência dolorosa chamava a atenção. “Ele falava que era pro nosso crescimento pessoal e espiritual”.

Foto: Reprodução

Fonte: Portal G1 CE

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