Onze das 33 mulheres resgatadas de clínica onde viviam em celas seguem morando em centro de reabilitação no interior do Ceará


Onze mulheres do grupo de pacientes resgatadas de uma clínica que mantinha as internas em celas, no Crato, seguem morando em um centro de reabilitação em Juazeiro do Norte, no interior do Ceará. A assistente social Audilene Fernandes, que fez inspeção no local, contou ao G1 que encontrou uma mulher ferida e uma outra que jantava água com farinha. “Eram zumbis”, disse. (leia mais abaixo)

As condições sub-humanas em que 33 mulheres viviam na clínica de repouso foram descobertas quando a Polícia Civil foi ao local para prender o diretor, Fábio Luna dos Santos, 35 anos, por suspeita de abuso sexual contra duas internas. As investigações começaram após uma das vítimas entregar um bilhete para a irmã pedindo socorro. (veja o bilhete abaixo)

Audilene, coordenadora do Centro de Referência da Mulher no Crato, ainda acompanha as vítimas e foi uma das primeiras pessoas a chegarem à clínica após o flagrante. Ela afirma que, horas após a prisão do diretor, parentes foram buscar parte das internas.

Já outras, que eram de municípios vizinhos, foram realocadas no Centro Integral de Reabilitação de Juazeiro, onde são acompanhadas por uma equipe de profissionais especializados desde o dia do resgate.

“As que são de cidades vizinhas acompanhamos através dos equipamentos locais e eles estão nos dando esse retorno de como estão essas mulheres. Já as do Crato fazem o acompanhamento psicológico no nosso equipamento”, disse Audilene.

Crato

Durante a visita ao local, as internas relataram para a assistente social as condições que eram submetidas. “Elas informaram que eram trancadas à noite e o portão das celas só eram reabertos no dia seguinte, por volta das 7h. As necessidades eram feitas em baldes, que elas tinham que limpar. A gente sentia a dor na voz delas”, disse.

A clínica de repouso funcionava desde 2015 e abrigava internas com problemas psiquiátricos, que tinham entre 30 e 90 anos de idade, e estava com o alvará de funcionamento em dias. Após a polícia constatar a situação em que as vítimas eram mantidas, o diretor do local foi autuado em flagrante por cárcere privado e maus-tratos.

No dia seguinte, o alvará sanitário do local foi suspenso pela Secretaria de Saúde do Crato, que alegou que, na ocasião da emissão, o local “‘apresentava condições salubres e de funcionamento”.

Água com farinha

Conforme a coordenadora do Centro de Referência da Mulher, uma das mulheres encontradas no local chegou a relatar que jantava somente com água com farinha, pois a família dela não tinha como repassar todo o dinheiro do benefício dela para o abrigo.

A assistente social afirma que chegou a questionar aos funcionários da clínica de reabilitação sobre os ferimentos na idosa e eles informaram que a mulher teria caído. “Indagamos quando teria ocorrido, mas eles não sabiam de nada. Aquilo poderia ter sido um TCE (traumatismo cranioencefálico) grave”.
No mesmo dia foi feita uma força-tarefa para localizar os parentes das internas. “Entramos em contatos com os familiares, muitos responderam prontamente e foram ao local resgatar as vítimas. Uma delas era de Picos (PI) e os parentes viajaram até o Crato para buscá-la. Quando eles chegaram ela chorou bastante e ficava agradecendo”, relembra Audilene.

Bilhete com pedido de socorro


Em entrevista no dia da prisão do diretor da clínica, a titular da Delegacia de Defesa da Mulher do Crato, Camila Brito, responsável pela investigação, disse que uma das mulheres pediu ao diretor da clínica para falar com a irmã e entregou o bilhete, secretamente. Familiares da vítima mostraram o bilhete à delegada e, a partir dele, as investigações começaram.

“”Diga à *** [irmã da vítima] que estou sofrendo abuso sexual. Manda ela vir me tirar. Manda ela fingir que não tenho nada. Para mim poder sair . Sou eu e minha amiga que ‘está ‘ sofrendo. Urgente. Me tire daqui. Manda ela pegar o dinheiro. Depois eu pago a ela, vem logo por favor “, escreveu a mulher mantida em cárcere e violentada em clínica.

“De imediato, nós orientamos que essas irmãs retirassem a vítima dessa casa, porque são familiares, então têm todo o direito de tirar a irmã de lá”, afirmou a delegada. Após a saída da mulher da clínica, ela prestou depoimento, o qual foi importante para que a Polícia Civil pedisse a prisão preventiva de Fábio Luna.
Segundo a delegada, a vítima não sofreu conjunções carnais, mas atos libidinosos, que também são configurados como crimes sexuais, quando não são permitidos pela vítima

G1

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