Centro Cultural do Cariri guarda episódios importantes para a Medicina e a Religiosidade cearense


Das tradicionais romarias em homenagem a Padre Cícero, que reúnem milhares de fiéis em Juazeiro do Norte, passando pelos festejos populares de Santo Antônio em Barbalha e pela feira agropecuária Expocrato, o Cariri concentra grande diversidade de manifestações culturais que exaltam a história do povo cearense, seus costumes e meios de subsistência, e contribuem significativamente para o desenvolvimento da região. Nesse contexto, uma série de investimentos em Cultura e Lazer, a exemplo da implantação do Centro Cultural do Cariri (CCC), no Crato, vêm sendo aplicados pelo Governo do Ceará para valorizar e impulsionar ainda mais esse rico polo turístico, religioso e econômico encontrado no sul do Estado.

Uma área de quase 57,5 mil metros quadrados no bairro Gisélia Pinheiro, no Crato, será requalificada para receber o CCC, espaço que já foi utilizado para múltiplos propósitos ao longo da história. Originalmente conhecido como Sítio Recreio, o local teve sua primeira grande edificação projetada por arquitetos alemães: um imponente edifício em formato de H, com elementos de estilo neocolonialista e composto por três blocos que variam de dois a quatro pavimentos, conectados por corredores ladeados por arcos.

O historiador Roberto Júnior, pesquisador da Política, Sociedade e Cultura caririense, retrata as características arquitetônicas do prédio e o momento em que foi construído: “Essa construção começou a ser erguida em 1943, umas das primeiras do Crato feita totalmente em concreto armado, o que era algo moderníssimo para a época na região. Possuía um campanário e uma torre de relógio com o importante papel de regulador público, fora sua bonita arquitetura angular”, observa.

O complexo abrigou primeiramente os sacerdotes da congregação dos Missionários da Sagrada Família (MSF), instituição católica atuante no Crato desde o início dos anos 1940 até 1971. À medida que difundiam os ensinamentos cristãos, os missionários trouxeram diversas melhorias infraestruturais para a cidade, pela construção de igrejas, escolas, postos de saúde, habitações, entre outros.

Mas mesmo antes da chegada dos religiosos alemães, a região já evidenciava seus valores culturais por ser a terra onde nasceu o desenhista e pintor cratense Vicente Leite (1900 – 1941).

Após a MSF deixar o Crato, sucessivas reformas e ampliações foram realizadas no prédio do antigo seminário, no qual passou a funcionar, a partir de 1973, o Hospital Regional Manuel de Abreu, especializado no tratamento da tuberculose. Inclusive, o hospital recebeu esse nome em homenagem ao médico Manoel Dias de Abreu, criador da abreugrafia, um tipo de radiografia utilizada para diagnosticar precocemente a doença.

Inicia-se aí um importante período para a história da Medicina do Ceará, já que o hospital se tornaria um centro de referência para tratar a doença que se alastrava pelo País naquele momento. Além do Crato, a unidade de saúde absorvia a demanda dos demais municípios caririenses, facilitando o acesso aos pacientes, que não precisariam mais se deslocar até os habituais centros de tratamento da tuberculose, em Maracanaú ou Recife.

O Hospital Manuel de Abreu permaneceu em operação por 41 anos, e durante esse período foi agregando, além de radiologia e centro cirúrgico, outros serviços como maternidade e odontologia, até ser desativado em 2014.
O equipamento viria a ser tombado em 2017 pela administração municipal como patrimônio histórico-cultural do Crato, sendo adquirido pelo Governo do Ceará no mesmo ano.

A obra

Desde novembro de 2020 ocorrem obras de reforma e restauração do espaço, intervenções que vão não apenas modernizar as estruturas internas e revitalizar o entorno do complexo, mas também transformá-lo em mais um atrativo cultural e turístico da Chapada do Araripe. O empreendimento faz parte do Programa de Descentralização das ações e investimentos de Cultura no Ceará, coordenado pela Secretaria da Cultura (Secult).

“O Centro Cultural do Cariri será um dos equipamentos mais belos do estado do Ceará, um edifício com mais de 80 anos onde estamos empregando todos os esforços para recuperá-lo na parte de engenharia e arquitetura, com várias frentes. Nossas equipes estão trabalhando em ritmo acelerado para que possamos fazer a inauguração até meados de março de 2022 desse importante espaço para o Crato e região”, frisa o superintendente de Obras Públicas, Quintino Vieira.

São cerca de R$ 54 milhões investidos nas obras do CCC, sob supervisão da Superintendência de Obras Públicas (SOP). As frentes de serviços contam hoje com 260 operários no local e se concentram tanto nos acabamentos do prédio principal e suas instalações elétricas e hidrossanitárias, quanto na execução das fundações do novo bloco que a edificação vai ganhar, com um teatro de seis andares e 500 lugares, além da pavimentação de passeios.

O centro cultural ainda será integrado com uma variedade de ambientes para promover espetáculos e exposições, salas para pesquisa e formação artística, museus, alojamentos, manufatura de artesanatos, restaurante e café, e um planetário.

“Foi uma iniciativa muito acertada do governador Camilo Santana restaurar esse prédio, após anos sendo subutilizado. Um equipamento desse porte, que é ressignificado e reinserido no cotidiano da população, vai, sem dúvida, fomentar a produção cultural do Cariri, trazendo agora infraestrutura para recebermos festivais de música, cinema e outras expressões artísticas”, avalia Roberto Júnior.

Esporte e interação com a natureza são elementos também inseridos no projeto do CCC, que contará com campo de futebol, quadras poliesportivas, pista de skate e parque infantil, todos cercados por vegetação nativa preservada. E, para garantir comodidade aos visitantes, dois amplos estacionamentos.

Foto: Airton Lima Jr 

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