Onda da variante ômicron pode aumentar casos de ‘Covid longa’


A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que de 10% a 20% dos infectados pelo coronavírus experimentem sintomas meses depois de estarem considerados curados da infecção. Só no Brasil, que acumula cerca de 22 milhões de casos considerados curados da Covid-19, isso significaria de 2,2 milhões a 4,4 milhões de pessoas que continuaram sofrendo com fadiga crônica, perda de memória, dores de cabeça, falta de ar e de olfato, por exemplo, semanas após a infecção inicial.

A onda da variante ômicron provoca recordes de novos casos no país e no mundo e, embora haja sinais de que a variante e a vacinação em massa diminuam a proporção de pacientes graves, médicos preocupam-se que a cepa, descoberta há dois meses, aumente ainda mais o contingente de pessoas com sequelas, ou Covid longa, no país. “É uma resposta que só teremos em seis meses. O número de pessoas entrando na UTI aumentou muito. Se forem 5% de um milhão de infectados, por exemplo, é muita gente”, diz a professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Carolina Marinho, que conduz um estudo sobre a Covid longa.

 

O estudo reúne 250 pacientes, acompanhados durante um ano e meio após a hospitalização por Covid-19. “A maior parte teve melhora dos sintomas depois de seis meses. É curioso que mesmo quem não foi para o CTI permaneceu com fadiga e fraqueza prolongadas e efeitos na saúde mental, que são comuns em quem vai para o CTI”, explica a médica. O Hospital das Clínicas da universidade inaugurou um ambulatório para atendimentos pós-Covid em outubro do ano passado e, desde então, recebe uma média de dois pacientes por semana — alguns deles, explica a pesquisadora, que sequer precisaram de internação.

No último ano, o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito) percorreu 55 municípios mineiros de todas as regiões do Estado para mapear pessoas com sequelas tanto físicas quanto cognitivas, no projeto Supera Minas. Após examinar 3.250 pessoas, a avaliação encontrou uma parcela de pacientes que ainda precisavam de tratamento médico até seis meses depois da Covid-19. “Entre os avaliados, 50% receberam orientação domiciliar, mas 12% precisaram ser encaminhados para serviços de fisioterapia para atendimento, porque não bastaria cuidado em casa”, detalha o presidente do conselho, Anderson Coelho.

O especialista reflete que a onda da ômicron têm menos chance de deixar sequelas nos casos mais leves entre os vacinados, porém preocupa-se com o grupo de não vacinados que podem sofrer com os sintomas meses depois. “O corpo de quem está vacinado está preparado para receber uma carga viral”, pontua o especialista. Em Minas Gerais, de acordo com a última atualização da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), 80% dos internados em UTIs e 85% dos pacientes nas enfermarias não receberam nenhuma dose da vacina ou não completaram o esquema vacinal.

Outro estudo sobre as consequências da Covid-19 é conduzido em Porto Alegre, no Hospital Moinhos de Vento, em parceria com o Ministério da Saúde. Em Minas Gerais, três hospitais devem participar, de acordo com a equipe — a Santa Casa de BH, a Santa Casa de Passos e o Hospital das Clínicas da UFMG. A ideia é recrutar 2.300 voluntários, desde quem teve quadros leves a quem ficou na UTI, e acompanhar sua evolução durante um ano. A expectativa é que a pesquisa mensure a quantidade de pacientes que podem sofrer com a Covid prolongada no Brasil. “Queremos observar o impacto de longo prazo da pandemia na saúde da população brasileira para elaborar políticas públicas”, conclui a líder do projeto, Geraldine Trott.

 

Infecção pelo coronavírus pode deixar mais de 50 sequelas

Após 20 dias internado em uma enfermaria com Covid-19, o mestre de obras aposentado Tarcísio da Silva, 89, recebeu alta e foi considerado curado. Um mês depois, porém, começou a ter desmaios sem motivo aparente e, em uma consulta, descobriu que estava com uma fibrose resultante da infecção, o que faz com que precise utilizar bomba de oxigênio por horas diariamente há mais de um ano. Sua filha, a servidora pública Elcia Silva, 50, também adoeceu, mas não precisou ser hospitalizada. A memória, porém, não foi a mesma desde então.

“Fiquei com a cabeça esquecida, agora anoto tudo para não esquecer. No trabalho, pergunto algumas coisas para colegas que antes eu sabia sem pensar”, relata. O projeto Supera Minas, que percorreu o Estado com fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, identificou que 55% dos 3.250 pacientes atendidos relataram problemas de memória e que, após passarem por testes clínicos, atestou-se o problema em 37% deles.

Uma revisão de 18 mil estudos publicada na revista científica “Nature” concluiu que a Covid-19 pode levar a 55 sequelas com duração de quase quatro meses.

Fadiga, dores de cabeça, falta de atenção, perda de cabelo e falta de ar foram os sintomas persistentes mais comuns. “Muitos sintomas são decorrentes da internação, que é traumática, mas a própria doença causa uma inflamação generalizada no corpo. O que observamos, mas precisa de mais estudos, é que os pacientes que não se internaram têm uma recuperação mais rápida”, detalha o médico Filipe Malta, coordenador do Ambulatório Pós-Covid da UniBH, uma parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) para atender a pacientes com sequelas.

Fora as consequências diretas da doença, a tensão de se infectar e os dias de isolamento durante o quadro podem levar a quadros de estresse extremo que se refletem na saúde mental no longo prazo. “No nosso ambulatório, vemos alto nível de estresse pós-traumático nos pacientes, mesmo entre quem teve casos leves, às vezes pelo medo de transmitir a doença”, pontua a consultora técnica de projetos do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, que estuda pacientes com sintomas pós-Covid.

“O caso do paciente que não está conseguindo trabalhar, por exemplo, tendo faltas após a Covid, deve ser investigado. Quando mais rápido começar a reabilitação, melhor”, orienta o médico Filipe Malta.

 

Depois da Covid

No mundo: revisão internacional de estudos sobre sequelas da Covid descobriu os sintomas mais comuns em quase 48 mil pacientes.

Fadiga: 58%

Dores de cabeça: 44%

Falta de atenção: 27%

Queda de cabelo: 25%

Falta de ar: 24%

Em Minas: projeto Supera Minas, do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito), avaliou 3.250 pessoas que tiveram Covid há até seis meses.

Falta de ar

-40% dos pacientes tiveram falta de ar nos 30 primeiros dias após a Covid.

-21% nos 90 primeiros dias.

-7% acima de 90 dias

3% dos pacientes tiveram queda de cabelo

6% tiveram falta de equilíbrio e força nos membros inferior

11% tiveram tosse seca

Fontes: Crefito; artigo “More than 50 long-term effects of COVID-19: a systematic review and meta-analysis”.

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