Cancelamento de bolsas da Capes afeta pesquisas sobre o Covid-19


Mudança na distribuição de bolsas de estudo concedidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) afetou um dos pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) que trabalha no sequenciamento do genoma do novo coronavírus. A alteração, determinada em portaria publicada no início do mês, cancelou bolsa de doutorado prevista para o Programa de Pós-Graduação em Biologia Microbiana da federal.

O biomédico Ikaro Alves de Andrade, 23 anos, alcançou o primeiro lugar na seleção do departamento para receber a bolsa e, desde janeiro, trabalhava ao lado do grupo de pesquisa, na expectativa de começar a receber o auxílio assim que o semestre iniciasse. Na última quinta-feira, no entanto, foi surpreendido com a notícia de que não seria mais contemplado. “Meu programa ficou comprometido, assim como outros da universidade e de outras instituições do país”, comentou Ikaro, cujo trabalho envolve a descoberta de novos vírus que afetam seres vertebrados.

O doutorando veio do Tocantins para Brasília em 2018, quando começou o mestrado na UnB, e foi aprovado no último processo seletivo para a etapa atual. Ikaro chegou a iniciar as atividades de pesquisa com o novo coronavírus, mas recebeu a notícia do cancelamento das bolsas. “Fico triste, porque é nossa oportunidade, como pesquisadores, de desenvolver a ciência brasileira. Muitos acham que é um favor”, disse.

Ikaro acrescentou que o valor ajuda no sustento dele na capital federal. “Espero que nossas autoridades repensem (o cancelamento). Sei que podemos passar por uma situação complicada, mas precisamos investir na ciência. A gente precisa da bolsa. Não é nenhum drama ou questão emocional. É preciso respeitar a ciência. Muita gente acha que estamos em uma colônia de férias, mas estamos trabalhando de forma séria”, destacou o pesquisador.

Origens do coronavírus
O jovem faz parte de uma equipe de quatro pesquisadores que trabalham para sequenciar o genoma do novo coronavírus. Além dele, a equipe é composta por outros três virologistas, todos professores na UnB. Um deles, Fernando Lucas de Melo, do Instituto de Citopatologia da universidade, comenta que esses estudos ajudam a identificar a origem dos coronavírus que circulam pelo DF.

“Com a amostra de um paciente, não conseguimos dizer muita coisa (sobre o vírus), pois ele sofre algumas mutações. O objetivo do nosso projeto é conseguir fazer muitas amostras. Se sequenciarmos várias, conseguimos ver como acontece a transmissão e saber, por exemplo, de onde é o vírus com que a pessoa se contaminou”, detalhou Fernando.

Além de Ikaro e Fernando, a equipe é composta pelos professores Tatsuya Nagata e Bergmann Morais Ribeiro, do Departamento de Biologia Celular da UnB. O laboratório Sabin de Brasília também tem apoiado, por meio das pesquisas do grupo coordenado pelo pesquisador e farmacêutico Gustavo Barra.

Para a pesquisa na universidade, é necessário que os pacientes autorizem o uso da amostra. A primeira obtida pela equipe da UnB foi fornecida por um homem, que não precisou ser hospitalizado e está bem. Os dados de identificação são sigilosos.

“Eles (do Sabin) começaram o sequenciamento no DF. Quando a amostra chega, eles processam. Nós tínhamos a estrutura, mas, como era vírus novo, conseguimos sequenciar em uma semana (desde a chegada do coronavírus no DF)”, contou Fernando.

O virologista destacou que esse estudo é fundamental para que se entendam os vínculos que surgem entre quem se contaminou. “Consigo dizer, por exemplo, se a epidemia em Brasília começou de um único caso ou de casos diferentes.” Por isso, segundo ele, o incentivo à pesquisa é necessário.

“As pessoas às vezes acham que alunos de mestrado e doutorado estão só estudando. Óbvio que sim, mas, enquanto aprendem, eles produzem. Eles são uma mão de obra, na verdade super barata, para fazer pesquisa no Brasil. E são essas pessoas que a gente forma hoje que vão enfrentar crises do futuro. Se você reduz esses investimentos de pesquisa, você não vai sentir isso agora, mas vai sentir daqui a 20 anos, quando as pessoas deixarem de se formar”, destacou.

A UnB informou que recebeu com “surpresa e indignação” a notícia. “Na Universidade de Brasília, o impacto é muito significativo para esses programas: deles, foram cortadas 187 bolsas (ou cerca de 14,6%, em relação às que estavam disponíveis em fevereiro deste ano). Se considerados os cortes implementados pela Capes desde maio do ano passado, o impacto é ainda mais drástico: 304 bolsas deixaram de ser implementadas (ou 21,8%)”, afirmou, por meio de nota, a instituição de ensino.

Surpresa
A universidade acrescentou que a portaria da Capes também eliminou a possibilidade de distribuição de bolsas emergenciais por parte do Decanato de Pós-Graduação a alguns programas de estratos (notas) 3, 4 e 5. “Antes, as instituições tinham uma margem de bolsas, que podiam ser utilizadas para ajustar desequilíbrios intrínsecos ao fluxo de distribuição interna de cotas dentro de cada universidade. O quantitativo foi reduzido em 2019 para 5% do total de bolsas concedidas e, agora, foram retiradas das pró-reitorias”, completou o texto.

O Programa de Pós-Graduação em Biologia Microbiana da UnB foi criado a menos de oito anos e é considerado recente, já que as avaliações da Capes ocorrem a cada quatro anos. Tem conceito 4, numa escala que vai até 7, pois só foi avaliado uma vez desde a criação. Para alcançar notas mais altas, os programas de pós precisam de mais tempo de existência. Daí a importância das bolsas para desenvolvê-los e chegar a padrões de excelência internacional (conceitos 6 e 7).

“Não houve cortes”
A Capes, por sua vez, nega que havido cortes e afirma que o modelo de distribuição das bolsas continua a levar em consideração critérios como nota do curso na avaliação, titulação de mestres e doutores e doutorado. A Portaria nº 34/2020 “não muda os critérios do modelo”, defende, em nota. “A única alteração foi em relação aos pisos e tetos para o aumento ou redução de bolsas. Não houve cortes no total geral de bolsas.”

A coordenação afirmou que, na sexta-feira (27/3), divulgou o balanço de ganhos e perdas de bolsas dos cursos e destacou que os benefícios serão mantidos até o fim da vigência. Além disso, os cursos poderão tê-las de volta em 2021, segundo a entidade.

Ainda de acordo com a Capes, 42% dos cursos tiveram ganhos de bolsas, em 38% deles a quantidade permaneceu e 20% tiveram redução. “Mas as bolsas dos estudantes que têm foram mantidas até o prazo de vigências das mesmas”, justificou a Capes.

Confira o total de bolsas em programas institucionais repassado pela Capes:

Março de 2019: 84.486
Fevereiro de 2020: 81.448
Março de 2020: 84.786
MPF pede explicação
A medida da Capes, divulgada na Portaria nº 34/2020, foi tema de uma recomendação do Ministério Público Federal (MPF), que prevê que a coordenação adote medidas administrativas para suspender os efeitos do ato administrativo e que justifique o motivo da publicação.

O pedido partiu de inquérito instaurado na Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão no Rio Grande do Sul e tem abrangência nacional. O órgão do MPF apontou que não houve divulgação do número de bolsas cortadas e que o cancelamento pode deixar em condição de vulnerabilidade bolsistas que precisaram se deslocar de cidade. O Ministério Público Federal solicitou cópias de estudos que levaram à edição da portaria e acesso às planilhas de distribuição de bolsas, com os quantitativos de reduções de 2019.

O artigo oitavo do ato normativo da Capes prevê diminuição de até 50% na redistribuição das bolsas com base nas notas de avaliação dos cursos de pós-graduação feita pela entidade. A portaria define a medida de modo a “conferir maior concretude à avaliação da pós-graduação e maior prioridade aos cursos mais bem avaliados”.

Fonte: Correio Brasiliense

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