Testes de tratamentos da Covid-19 serão iniciados em Fortaleza


Cientistas de todo o mundo estão engajados na busca por tratamentos para a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Na próxima semana, o Hospital São José (HSJ), em Fortaleza, da rede estadual de saúde do Ceará e referência no tratamento de doenças infectocontagiosas no Nordeste, deve receber as primeiras atuações do ensaio clínico Solidariedade (Solidarity), que visa a comprovar a efetividade de métodos de tratamento no combate à nova virose. A iniciativa é da Organização Mundial de Saúde (OMS) e, no Brasil, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com apoio do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (Decit/MS).

O HSJ afirma, em nota, que “aceitou prontamente o convite”. Desde o início de abril, a unidade de saúde formou uma equipe e iniciou análise do protocolo estabelecido pela OMS junto ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital.

A Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) confirmou, até sexta-feira (10) , 1.568 casos de coronavírus no Ceará, em 53 municípios. Além disso, o IntegraSUS registrou 67 mortes provocadas pela doença.

Projeto

Ao todo, o projeto Solidariedade engloba 18 hospitais de 12 estados. Serão testados, na primeira etapa, os medicamentos cloroquina, remdesivir, a associação lopinavir com ritonavir, e esta última com acréscimo do Interferon Beta 1a. Eles são indicados, por exemplo, para tratar malária, ebola, HIV e esclerose múltipla. Parte dos insumos será destinada pela OMS e o restante, pela Fiocruz. O primeiro paciente foi incluído no ensaio no dia 31 de março, no Rio de Janeiro.

Segundo Valdiléa Veloso, diretora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), a expectativa é realizar testes em 1.200 pessoas, de todos os centros de pesquisa selecionados, que estejam internadas, com ou sem ventilação mecânica – uma medida de auxílio respiratório em casos de maior gravidade. O tratamento será iniciado após consentimento e avaliação dos pacientes.

“Esse estudo tem um desenho adaptativo, dinâmico, que permite serem feitas análises ao longo da realização e não apenas ao fim. Se o comitê central perceber, por dados, que alguma droga não funciona, aquele braço do estudo sai. Se aparecer algum promissor, ele pode ser incorporado e testado”, explica a diretora, ressaltando que, quanto maior a representação de pacientes, mais os resultados podem se aplicar à população que eles descrevem.

Valdiléa afirma que ainda não é possível determinar quando as respostas tão esperadas devem chegar, mas destaca que o objetivo da cooperação global é encontrá-las o mais rápido possível. Como o estudo é adaptativo, alguns tratamentos podem ser recomendados tão logo se mostrem seguros e eficazes. O custo total no País é de R$ 4 milhões, pagos com recursos do Ministério da Saúde.

Inibidor

Referência nacional em produção científica, a Fiocruz tem desenvolvido outras análises de combate ao coronavírus. Nesta semana, pesquisadores da entidade divulgaram que o atazanavir, medicação utilizada no tratamento de pacientes com HIV/aids, teve eficácia, em laboratório, na inibição da replicação do vírus Sars-Cov-2, agente da Covid.

Natália Fintelman Rodrigues, pós-doutora em Virologia do Laboratório de Imunofarmacologia da Fiocruz, diz que uma das linhas de pesquisa da instituição é o reposicionamento de medicamentos, quando se buscam novas funções para drogas já aprovadas para uso clínico e das quais já se conhecem os efeitos adversos e as doses ideais.

No estudo em questão, o atazanavir foi aplicado em duas culturas de células: uma que “replica muito bem”, ou seja, que o vírus infecta com facilidade, e outra proveniente do pulmão humano, “para chegar ao mais próximo da realidade”. “Algumas, a gente infecta e, outras, infecta e trata com o atazanavir. Depois de um certo tempo, a gente conta quantos vírus têm e consegue comparar. Vimos que, nas tratadas diminui bastante a quantidade de vírus, o que significa que ele está inibindo a multiplicação”, garante.

Por enquanto, o estudo foi realizado apenas em laboratório, sem aplicação em humanos, mas os dados foram disponibilizados numa plataforma científica e já tiveram leitura em países como Estados Unidos e Japão. “Pusemos lá para que todo mundo pudesse ver os resultados e, com isso, despertasse o interesse para que seja feito ensaio clínico. Nosso objetivo é este”, diz a pesquisadora.

Automedicação

Fintelman minimiza o risco de desabastecimento do atazanavir, quando questionada se há possibilidade de redução dos estoques, a exemplo do que aconteceu com a hidroxicloroquina. O medicamento, utilizado para tratar doenças autoimunes começou a ser aplicado em alguns locais contra o novo coronavírus – embora não haja evidências científicas que comprovem sua eficácia -, mas a divulgação do método levou à queda no estoque de farmácias, prejudicando pacientes que realmente precisam dele.

“O atazanavir é fabricado para uso do Sistema Único de Saúde (SUS), então tem um controle maior. A própria Fiocruz produz, mas ele não é vendido. Achamos que vai ter um controle melhor por causa disso. A produção é bem grande, então isso vai ser importante, caso ele seja usado em ensaio clínico”, observa.

A diretora do INI, Valdiléa Veloso, reforça o risco da automedicação como prevenção ao coronavírus. “Todo medicamento tem efeitos colaterais. A cloroquina e a hidroxicloroquina têm efeitos que podem ser significativos e levar inclusive à morte”, alerta a também médica infectologista. Elas podem afetar o músculo cardíaco e alterar o ritmo dos batimentos.

No fim de março, um homem idoso faleceu por parada cardíaca, nos Estados Unidos, após ingerir uma variação da substância. A esposa dele também ficou gravemente internada por intoxicação. “Não comprem cloroquina para esse fim de se prevenir ou tratar. Apenas médicos que tiverem pacientes muito graves vão avaliar se o medicamento pode ser tentado”, reitera, lembrando que interações medicamentosas com outras drogas podem agravar a toxicidade do remédio.

Na última quarta-feira (8), especialistas em saúde defenderam o uso “precoce” da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes com sintomas de Covid-19, mesmo sem diagnóstico confirmado da doença. A imunologista Nise Yamaguchi, do Departamento de Oncologia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, afirmou que o uso deve ser feito “logo no primeiro sintoma”, indicando que seria melhor iniciar o tratamento enquanto se espera o resultado de teste para o coronavírus.

Já o infectologista cearense e médico do HSJ, Anastácio Queiroz, reforçou que a vantagem do protocolo de tratamento da Covid-19 com cloroquina e hidroxicloroquina se deve ao fato de que os medicamentos e os efeitos são bem conhecidos por médicos – enfatizando, porém, que os pacientes devem ser avaliados antes e durante o tratamento, realizado em cinco dias.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a condução do primeiro estudo sobre esses medicamentos no Brasil. Os resultados dessa e de outras pesquisas são necessários para que se saiba sobre segurança e a eficácia deles no tratamento da Covid-19, ainda não comprovadas.

FOTO: BERNARDO PORTELLA/FIOCRUZ

FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE

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